quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Conversando com "Don" Juan

Fiquei meio sem inspiração para escrever estes meses (foram anos?). Comecei este blog com a intenção de falar sobre minhas "viagens". Dali para cá, foi como se o que eu achasse que tinha a dizer evaporasse, e na melhor das opções, quando não se tem nada a falar, o melhor é ficar quieto. Falei sobre o nascimento de meu terceiro filho, Ho'oponopono, esta técnica espetacular, e calei-me. Mas ainda no fundo restavam idéias querendo expressão, mas que a labuta do dia-a-dia sufocaram. As vezes no meio da noite elas me assaltam, exigindo saída, sob pena de se vingarem, tornando-se pesadelos. Então aqui vai. Em 1991 conheci o Don Juan Sanches, um sujeito pra lá de esquisíto no início, mas cujas idéias e conceitos sobre como o mundo e os mundos funcionam me fizeram questionar tudo. Aliás, ele recomenda um contínuo questionamento sobre tudo, objetivando treinar o não-julgamento. Eu estava caminhando no Aterro do Flamengo, na verdade estava parado na beira da praia, bebendo água, quando aquele sujeito esquisito parou. Ele é um tipo índio, como os bolivianos costumam ser, com os cabelos presos por um elastico colorido que depois ele explicou que pertencia à filha dele, e ele estava usando porque não encontrou o dele... Ele comprou água também e começou a falar que "o dia estava muito bom, exatamente como ele havia intentado que fosse"... Eu e o vendedor olhamos para ele, foi engraçado, mas isso não o intimidou, ao que ele continuou: "Ontém estaba estranho, mas apenas limpié minha mente e o céu quedou a se limpar tambiém" - no mais perfeito portunhol. O vendedor saiu de fininho e me deixou lá sentado, com o gringo maluco. Eu me levantei, me despedi e no segundo ou terceiro passo ele disse: "Usted tambiém puede cambiar la realidad", ao que eu parei, quase dizendo para mim mesmo que eu me arrependeria, por ouvir o que o boliviano tinha a dizer. Para encurtar, foi uma tarde mágica, trocamos impressões sobre mentalismo, e mais uma vez eu que achava que sabia alguma coisa, vi que não sabia nada. Ele fez uma demonstração de corrida em levitação que ele praticava há anos, deixando algumas pessoas que viram sem entender nada, e eu às gargalhadas. Ele seguia a mais pura linha do xamanismo inca, e também passou por "escolas" de feiticeiros pela China e África, falou sobre sonhos e mensagens no ar. Graças a ele perdi meu preconceito contra o xamanismo, pois acreditava erroneamente que todas as linhas de feitiçaria seguiam o animismo, perda de consciência para ser possuído por formas de pensamento ou por restos astrais de mortos. Puro erro. Recentemente, quando me tornei haumana (aprendiz kahuna), descobri maravilhado que os próprios kahunas tratam os deuses e deusas de suas tradições como arquétipos vivos, presentes em todos os seres. E graças a Juan pude seguir um pouco mais adiante, mas muito mais importante que isto: As vezes a coragem para ouvir um suposto louco compensa.
Perdi o contato com Juan. Ele, na mais pura tradição de sua linha deixa os encontros ao sabor dos ventos do destino e da intenção. Eu conversei com ele poucas vezes mais, porém o que foi mais bacana, é que encontrei muita gente que o conheceu e aprendeu bastante com ele também, como se fizessemos parte de uma grande rede. Em janeiro deste ano eu o encontrei no lugar mais inusitado para se encontrar um feiticeiro: dentro da Saraiva da rua do Ouvidor, na seção de materiais escolares! Ele estava com a neta procurando um lápis com certo enfeite, desejado pela menina. Quase não se lembrou de mim (pouco menos 10 anos do nosso ultimo encontro). Conversamos sobre política, economia, ai ele me perguntou se eu já estava preparado para 2012, e eu respondi que ainda estava me preparando para 2010. "Boa resposta" disse ele, "A única coisa certa sobre 2012, é que vem antes de 2013 e depois de 2011, o que vai acontecer é escolha sua. Ainda há esperanças para você!" - Caimos na gargalhada, e mais uma vez, os que presenciaram, não entenderam nada...

Nenhum comentário: